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Crônica da crônica

Sou uma crônica.
Desde que alguém me inventou – e isso já tem um tempinho – andei por um monte de lugares menos nobres que esse post.
Nasci num caderno de anotações. Não, não era um moleskine com capa de couro e procedência garantida por certificado. Era um bloquinho tosco e ensebado. O meu Autor era um pouco mais jovem e, cá entre nós, meio cabeça de vento. Apesar de não ser dos mais envernizados eruditamente falando, achava-se o Rubem Braga da Zona Oeste.
Toda vez que vinha até as páginas do bloco escrevia trechos de mim, mas acabava não me concluindo. Foram meses e meses assim. E eu não sabia o que era pior: quando ele chegava do nada, escolhia uma folha a esmo e tentava desenvolver alguma ideia nela ou quando ia embora e me largava semanas dentro da sua mochila úmida e escura.
Não preciso dizer que a presença ou a ausência dele me provocavam igualmente uma gastura tremenda. Houve instantes em que me desesperei e lancei aos céus uma lamentação chorosa: por que, meu Deus, não sou uma crônica no bloquinho do Luis Fernando Verissimo, mas desse cronistazinho de quinta categoria?
Só que, quando menos eu esperava, lá vinha Ele com sua lapiseira de aluno de cursinho pra cima do papel. E sempre com aquelas premissas que não batiam com a conclusão. Com uns pontos de vista banais e principalmente com uma originalidade discutível.
Bem, não queria admitir isso assim em público. Mas tenho quase certeza que o meu Criador não era tão inventivo assim, se é que me entendem.
Sei lá, não quero ser leviana, mas havia trechos redigidos naquelas linhas que me lembravam muito o de escritores bem superiores a Ele.
Eu sei que há o senso comum de que misturar e editar várias ideias acaba gerando um texto síntese, totalmente diferente dos que foram chupados. Mas, poxa, Ele abusava demais do recurso.
Por isso, durante muito tempo me enxerguei como uma crônica bastarda. Olhava pra mim e não me via original, mas um Frankenstein construído em cima do repertório de artistas mais capacitados que o meu Idealizador.
A questão é que ninguém controla nada. Não seria diferente comigo e com Ele. Um dia meu Autor deixou a mochila de bobeira em cima da mesa do botequim e um outro Autor apanhou-a.
O bloquinho de notas, comigo dentro, passou a ser de um novo dono. Esse simplesmente deu um tapa nos garranchos que estavam ali, tirou umas palavras em excesso e usou apenas pontos e vírgulas para me cadenciar – meu velho proprietário adorava parênteses, que imediatamente foram limados de mim.
E olha eu aqui, bela, fresca, postada, publicada, compartilhada e comentada!
Meu antigo Escritor plagiava Deus e o mundo. Esse agora plagia meu ex-Escritor. E assim caminha a arte desde que Shakespeare copiou Chaucer.

PS: perdoem-me se fui curta e grossa, mas meus dois escribas são da escola realista e a vida, convenhamos, não é propriamente um livro da Barbara Cartland.

Carlos Castelo

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