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Passional

Bruno procurava todas as noites tê-la, envolvê-la, fazer com que fosse sua, como outrora. Mas Alice sempre o evitava na cama, sempre dava desculpas, sempre o desprezava. Ele não se conformava. Sofria. E bebia. Bebia muito. E sofria mais. O desprezo e a desconfiança geravam o desespero. O jovem professor de matemática, Bruno, amava demais sua mulher, embora não fosse mais correspondido, e se refugiava na bebida e na melancolia.
Nina, bela fotógrafa, conheceu Alice, e com ela fazia muitas fotos. O trabalho de Nina aproximou-as. Uma seria confidente da outra. Seriam amigas. Muito amigas.
Bruno começava a desconfiar de Alice. Ela certamente guardava um segredo. Será que tinha um amante? Só podia ser isso! Não havia outa explicação. Alice o desprezava porque devia ter outro homem, pensava Bruno.
Ele foi ao aeroporto. Pegaria um avião. Sempre viajou a trabalho, e Alice teria todo o dia livre da presença dele para fazer o que quisesse.  Mas o professor neste dia perdeu seu voo e voltou para casa.
Ao chegar em casa, Bruno mal acreditou no que via. A traição da sua esposa! Alice acariciava, beijava,  e ardia de paixão aos braços de Nina!
– Sua vagabunda! Você me troca por uma lésbica?! – gritou ele, indignado com o que acabara de ver.
– Nós nos amamos! – retorquiu Alice. – Nós nos apaixonamos. Não temos culpa. Simplesmente, aconteceu!
Bruno foi embora de casa. Alice continuou o seu romance tórrido com Nina. Felipe, o filho de Alice e Bruno, era pequeno e não entenderia nada.
Dias depois, Bruno, que ainda amava Alice, preparava uma vingança. Sua esposa e a fotógrafa não poderiam ficar juntas. O professor pegou um jornal, procurou um anúncio e encontrou o que desejava. Ligou para Ellen, garota de programa. Quando a belíssima Ellen chegou ao encontro do professor, movida de desenfreada concupiscência e desejos libidinosos, esperava ser possuída por ele em troca de dinheiro. Entretanto, ele tinha outros planos.
Subornando Ellen, ele a instruiu a procurar os serviços de Nina. Ellen deveria fazer muitas fotos. Um ensaio fotográfico bem bacana. Deveria se mostrar muito sensual, deveria ser infalivelmente envolvente, e finalmente seduzir Nina.
O plano de Bruno funcionou. E Nina se apaixonou ferventemente por Ellen. Alice experimentaria do amargo sabor do desprezo, assim como ela o fizera com seu marido.
Fatos novos mascaram sentimentos profundos e atitudes inesperadas. Nina estava diferente, já não dava tanta atenção a seu antigo amor. Esta estranhou a mudança.  Inconformada, buscava razões que justificassem o repentino desdém da fotógrafa. Até que, numa certa ocasião, viu as fotografias sensuais de Ellen. A princípio, Nina apenas disse que as fotografias eram de uma cliente. Porém, as cobranças e investidas persistentes da amiga a respeito da bela jovem fotografada acabaram desencadeando a confissão da verdade: Ellen era o novo amor da amiga.
Alice não acreditou.  Não podia aceitar. Sua Nina era de outra.  Ela então resolveu que tentaria mudar esta situação.
Movida por uma determinação violenta e deletéria, e se fazendo passar por Nina, Alice enviou, do celular da sua amada, uma mensagem para a garota de programa. A mensagem dizia que ambas deveriam se encontrar num motel. A prostituta certamente atendeu o chamado. No quarto de motel, a aparição abrupta de uma mulher ciumenta, violenta e feroz terminaria em desgraça. Após agredir e matar Ellen a tiros, Alice acreditou que teria o amor de Nina de volta. Estava enganada.
Nina ficou desesperada quando soube da morte de Ellen. A outra se justificava para a amante dizendo ter agido por amor.
Uma paixão tão insana ainda vitimaria outra pessoa. Sua obsessão por Nina não tinha limites.
O ingênuo Bruno acreditou na esposa quando ela, por telefone, falou querer voltar para ele. Depois, atraído, ele entrou no carro com ela e se encaminharam a uma estrada. Quando o carro parou num lugar ermo, ela estava transformada num ser irreconhecível, bizarro e desumano. Ao saírem do carro, rapidamente, apontou um revólver para o marido, que, surpreso, custava a acreditar no que estava acontecendo.
– Não faça isso! – desesperou-se ele. – Pensa no Felipe!
Mas ela não pensou em Felipe e disparou três tiros no marido, matando-o, covardemente. Não houve chance de defesa.
O corpo de Bruno foi logo encontrado. Alice queria desviar a causa e a autoria do crime. Por isso, colocou cocaína no bolso dele assim que o matou. As evidências apontariam para envolvimento com traficantes, dívida de drogas ou talvez latrocínio. Mas a investigação logo descobriu que a arma que matou Bruno foi a mesma que matou Ellen. As evidências agora eram irrefutáveis. E Alice teria que pagar pelos seus crimes.
Alice acabou descobrindo o plano de Bruno e resolveu eliminá-lo por isso. A descoberta do plano se deu a partir do momento que Alice viu inúmeras chamadas de Bruno no celular de Ellen. O resto da trama foi fácil desvendar.
Transtornada com a morte de Ellen, Nina gritava a amiga, com fúria e indignação. Desnorteada, a assassina não entendeu o porquê das ações da amiga, aliás, ex-amiga agora. Segundo revelações da própria fotógrafa à assassina, Ellen confessou que tinha se aproximado de Nina por dinheiro, pago por Bruno, mas, com o tempo, acabou se apaixonando realmente por ela. E, é evidente, foi correspondida. Alice disse a Nina que cometeu os dois homicídios porque não queria ninguém interferindo no seu amor pela fotógrafa. A polícia, que estava escondida na casa de Nina, ouviu toda a confissão da assassina e a prendeu.
Alice foi a julgamento duas vezes. Uma pela morte de Ellen, a outra pela morte do marido. Nina foi testemunha de acusação. Revelou o que sabia. Confessou tudo. Pelo primeiro crime, a ré pegou oito anos de detenção, em regime fechado. Por ter matado o marido, sua pena aumentou, chegando a vinte e dois anos. Não obstante, a paixão sem limites de Alice trouxe problemas não apenas para ela.
E Felipe? O que seria dele agora, sozinho, com apenas oito anos? Teria que pagar pelos erros de sua mãe? Ora, Felipe não tinha avós. Todos já eram falecidos. Bruno era filho único e Alice também. Portanto, Felipe não tinha tios. Felipe não tinha mais ninguém. O egoísmo de sua mãe foi tão desmedido, inconsequente e avassalador que o vitimou de forma cruel e irreparável.
A justiça, enfim, encaminhou Felipe a um abrigo para menores. Tempos depois, ele foi adotado. Afinal, a vida tem que seguir seu rumo natural. O amor do filho pela mãe não desapareceu. Ele ia visitar a mãe na penitenciária. E as visitas eram frequentes.  Sempre acompanhado. E sempre na companhia daquela que o adotou: Nina.
Anakin Ribeiro
Conto baseado em fatos reais.

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