Pular para o conteúdo principal

uma mulher sob influência


 

queria escrever um poema sensorial, um sobrevoo rasante, ébrio, erótico,

com palavras que pudessem salvar algo disto aqui, mas o poema ele fracassa.

o poema fracassa justo onde eu preciso ser salva, justo onde eu, como gena,

mabel, como outras, como todas as mulheres que levantam os braços e rodopiam

com ou sem roupa, pelas ruas ou entre paredes, em silêncio ou aos berros,

           justo onde enlouqueço numa sazonalidade que não omito

 

                                                                                       mas não controlo.

 

queria escrever um poema que colasse no corpo como um drink açucarado que seca

sobre as pernas no dia seguinte após ter sido derramado numa noitada sem que fosse

sequer percebido. mas o poema fracassa porque esta loucura

porque esta loucura tem o formato de dunas que se movem

lentissimamente durante a noite, rearranjando uma nova paisagem estática

ainda que movente a cada dia.

 

                                     o poema ele não se curva

                           ele é tão domesticável quanto uma onça

                                    fumando charutos cubanos.

 

mas se você superar isto e seguir adiante, o poema te oferece

                                 uma delicadeza selvagem

como a de um gato que brinca monotonamente com um balão de gás

                                                          já meio murcho,

rolando-o pelo chão com as patas e unhas, mordiscando de leve,

                                                                       sem o destruir.

 

    queria mesmo que o poema tivesse uma qualidade profética,

                    que inaugurasse um universo paralelo

          mas o poema é bidimensional; ele tem a velocidade

         de gotas descendo espáduas octagenárias, incorrendo

              em cada vinco, hesitando nos profundos sulcos,

 

                                          ensaiando um desvio

                                      a cada acidente epidérmico

                                           causado pelos anos.

Rita Isadora Pessoa

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A carta de Thomas Edison

Certo dia, Thomas Edison chegou em casa com um bilhete para sua mãe. Ele disse: “Meu professor me deu este papel para entregar apenas a você.” Os olhos da mãe lacrimejavam ao ler a carta e resolveu ler em voz alta para seu filho: “Seu filho é um gênio. Esta escola é muito pequena para ele e não tem suficiente professores ao seu nível para treiná-lo. Por favor, ensine-o você mesmo!!” Depois de muitos anos, Edison veio a se tornar um dos maiores inventores do século.  Após o falecimento de sua mãe, resolveu arrumar a casa quando viu um papel dobrado no canto de uma gaveta. Ele pegou e abriu. Para sua surpresa era a antiga carta que seu professor havia mandado a sua mãe, porém o conteúdo era outro que sua mãe leu anos atrás. “Seu filho é confuso e tem problemas mentais. Não vamos deixá-lo vir mais à escola!!” Edison chorou durante horas e então escreveu em seu diário: “Thomas Edison era uma criança confusa mas graças a uma mãe heroína e d...

Casinha branca

Eu tenho andado tão sozinho ultimamente Que não vejo em minha frente Nada que me dê prazer Sinto cada vez mais longe a felicidade Vendo em minha mocidade Tanto sonho a perecer. Eu queria ter na vida simplesmente Um lugar de mato verde Pra plantar e pra colher Ter uma casinha branca de varanda Um quintal e uma janela Para ver o sol nascer. Às vezes saio a caminhar pela cidade À procura de amizades Vou seguindo a multidão Mas eu me retraio olhando em cada rosto Cada um tem seu mistério Seu sofrer, sua ilusão. Eu queria ter na vida simplesmente Um lugar de mato verde Pra plantar e pra colher Ter uma casinha branca de varanda Um quintal e uma janela Para ver o sol nascer. Gilson

Epitáfio para o século XX

1.   Aqui jaz um século onde houve duas ou três guerras mundiais e milhares de outras pequenas e igualmente bestiais. 2. Aqui jaz um século onde se acreditou que estar à esquerda ou à direita eram questões centrais. 3. Aqui jaz um século que quase se esvaiu na nuvem atômica. Salvaram-no o acaso e os pacifistas com sua homeopática atitude -nux vômica. 4. Aqui jaz o século que um muro dividiu. Um século de concreto armado, canceroso, drogado,empestado, que enfim sobreviveu às bactérias que pariu. 5. Aqui jaz um século que se abismou com as estrelas nas telas e que o suicídio de supernovas contemplou. Um século filmado que o vento levou. 6. Aqui jaz um século semiótico e despótico, que se pensou dialético e foi patético e aidético. Um século que decretou a morte de Deus, a morte da história, a morte do homem, em que se pisou na Lua e se morreu de fome. 7. Aqui jaz um século que opondo class...