Pular para o conteúdo principal

Invisíveis


 

Eu vejo você

Errando pela cidade atormentada

Tropeçando em sua própria sombra

À beira da rua

À beira do caminho

À beira da loucura.

 

Eu vejo você

Carregando o filho nos braços

Quando ainda é madrugada

Para a escola que você nunca frequentou

À beira do sono

À beira do esforço

À beira da esperança.

 

Eu vejo você

Pela fresta de alguma janela alta

Arremessando a dor com tanta força!

À beira do abismo

À beira do desencanto

E da deserção.

 

Eu vejo você

Cuidando de um jardim que não é seu

Mãos na terra, coração nos céus

À beira de florir

À beija de entender

Quem lhe pôs aqui.

 

Eu vejo você

Num reflexo de um espelho qualquer

(O espelho é o maior dos silêncios )

À beira da água

À beira do mergulho

À beira de si mesmo.

 

Eu vejo você

Vivendo o mesmo santo dia em repetição

Há tantos e tantos santos anos

À beira do absurdo

À beira de encontrar um verso simples

Que lhe convide a despertar.

 

Eu vejo você

E o seu medo de deixar-se ir

De deixá-los aqui

À beira de soltar

À beira de soltar-se

E prosseguir.

 

Eu vejo você

E o seu sorriso de vitrine

Buscando um sol que ilumine

Uma secreta escuridão

À beira de uma crise

À beira do embaraço

À beira... e só.

 

Vejo você

Como quem vê espectros

Que cintilam em meio à multidão.

Para o poeta que anda

À beira do papel

À beira do real

À beira da solidão,

O invisível é fundamental

Para toda e qualquer composição.

 

Andrey Cechelero

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Marmita vazia

  Era manhã cedo quando Bob saiu de casa com sua mochila gasta e a marmita vazia. O estômago roncava, mas ele já estava acostumado: muitas vezes, o almoço era apenas silêncio. Na escola, tentava disfarçar a fome com sorrisos tímidos, mas os colegas percebiam o olhar perdido e a falta de energia.   Na hora do recreio, Bob caminhou até o bebedouro. A água era o único consolo que tinha. Enquanto bebia, seus amigos se entreolharam em silêncio. Sem combinar palavras, cada um tomou uma decisão simples, mas poderosa: dividir. Um tirou da mochila um pedaço de bolo, outro colocou um sanduíche, outro ainda acrescentou frutas. Um a um, foram enchendo a marmita que antes estava vazia.   Quando Bob voltou, encontrou sua marmita transformada em um banquete improvisado. Os olhos se encheram de lágrimas, não apenas pela comida, mas pelo gesto.   Crianças são observadoras. Elas já haviam percebido o problema de Bob.   Naquele dia, Bob entendeu que a fome machuca, mas a g...

Casinha branca

Eu tenho andado tão sozinho ultimamente Que não vejo em minha frente Nada que me dê prazer Sinto cada vez mais longe a felicidade Vendo em minha mocidade Tanto sonho a perecer. Eu queria ter na vida simplesmente Um lugar de mato verde Pra plantar e pra colher Ter uma casinha branca de varanda Um quintal e uma janela Para ver o sol nascer. Às vezes saio a caminhar pela cidade À procura de amizades Vou seguindo a multidão Mas eu me retraio olhando em cada rosto Cada um tem seu mistério Seu sofrer, sua ilusão. Eu queria ter na vida simplesmente Um lugar de mato verde Pra plantar e pra colher Ter uma casinha branca de varanda Um quintal e uma janela Para ver o sol nascer. Gilson

Brado negro

Braços negros erguidos clamam dignidade porque mais uma vida negra foi silenciada para sempre. O sangue derramado no chão diz: “Não seja o próximo!” Tiros, policiais, traficantes... Como se esquivar do abismo, do intolerante? O caos canta pela voz de coquetéis molotov, mas é o amor  que derruba a árvore da violência. Em hip-hops, pichações e protestos on-line a mesma máxima: “O negro sabe amar e sabe lutar!” Definitivamente, a noite grita por respeito e paz e depois o sol de cada dia forja a dignidade com corações puros: construir a igualdade destruída, unir negros e brancos, enfim, amar o ser humano. Uma criança negra me disse que o amor forja a vida pela luz de todas as cores. Anakin Ribeiro