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O cético

Lucas era médico. Viu a vida começar e terminar incontáveis vezes. Sabia o limite exato entre a ciência e a esperança — e por isso, não acreditava em milagres. Para ele, curas inexplicáveis eram apenas falhas nos exames, erros estatísticos. Seu ceticismo o definia.   Certa manhã, recebeu no plantão uma criança com um tumor inoperável. A família fazia orações, amigos acendiam velas, estranhos faziam correntes de fé. Lucas fez o que pôde, mas no fundo já sabia o desfecho.   Sem explicação, o tumor desapareceu dias depois. Os exames estavam limpos. A equipe comemorou. Os pais choraram. Lucas, em silêncio, revia cada laudo, cada imagem, tentando encontrar o erro. Mas não encontrou. A única coisa que sabia é que queria muito a cura dela.   Na alta, a menina lhe entregou um bilhete: “Obrigada por cuidar de mim. Deus te ouviu também.”   Naquela noite, pela primeira vez, Lucas olhou para o céu - estupefato.  Havia gratidão por tudo o que o dia representa...

Aula inaugural

  O que eu preciso aprender? No primeiro dia de aula, metáfora, eufemismo, Pi, buraco negro, pirâmides, dinossauros, os sertões, as causas da pobreza, as injustiças do mundo, as guerras, os poetas, a vergonhosa escravidão, trezentos mil quilômetros por segundo, fecundação, as praias paraibanas, tudo isso saía da boca do professor para uma tela magistral pintada pelas minhas sinapses. A vida é tão desafiante. (Eu aprendi a lição). As pessoas são desafios.   O que eu preciso aprender? O amor ou a indiferença? A aula é um ritual estranho no qual o sangue do tempo faz expiação para a liberdade ensinar o caos a cantar lindamente. A intensidade nos ensina? (Eu aprendi a lição). As pessoas são sangue e lágrima.     O que eu preciso aprender? A indiferença é a coisa mais perigosa do universo. Quem estudou a indiferença, sabe como tudo funciona. (Eu aprendi a lição). As pessoas são dores.   O q...

Da discussão

“Os homens estão sempre tentando convencer os outros, mas jamais estão convencidos de suas próprias idéias” disse Tufiq ao discípulo. E contou a seguinte história: “Numa cidade da Pérsia viviam dois sábios, respeitados por todos. Um deles era ateu, o outro espiritualista”. “Um dia, a população organizou um debate entre os dois. No meio da praça, os sábios discutiram do nascer do sol ao entardecer. Cada um defendeu seu ponto de vista”. “No final do debate, os dois voltaram para casa. Com a cidade já às escuras, o ateu foi até o altar do templo, ajoelhou-se, e pediu perdão a Deus por seus erros passados. Nesta mesma noite, o espiritualista acendeu uma fogueira no quintal e queimou todos os seus livros, convencido de que não existia mundo espiritual.” Paulo Coelho  

Milton e o concorrente

Milton ainda não abriu a sua loja, mas o concorrente já abriu a dele; e já está anunciando, já está vendendo, já está liquidando a preços baixo do custo. Milton ainda está na cama, ao lado da amante, desta mulher ilegítima, que nem bonita é, nem simpática; o concorrente já está de pé, alerta, atrás do balcão. A esposa – fiel companheira de tantos anos – está a seu lado, alerta também. Milton ainda não fez o desjejum (desjejum? Um cigarro, um copo de vinho, isto é desjejum?) - o concorrente já tomou suco de laranja, já comeu ovo, torrada, queijo, já sorveu uma grande xícara de café com leite. Já está nutrido. Milton ainda está nu, o concorrente já se apresenta elegantemente vestido. Milton mal abriu os olhos, o concorrente já leu os jornais da manhã, já está a par das cotações da bolsa e das tendências do mercado. Milton ainda não disse uma palavra, o concorrente já falou com clientes, com figurões da política, com o fiscal amigo, com os fornecedores. Milton ainda está no subúrbio; o ...

Eu sei, mas não devia

  Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia. A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão. A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitan...

Do sábio

Um velho sábio chinês estava caminhando por um campo de neve, quando viu uma mulher chorando. “Por que choras?”, perguntou ele. “Porque me lembro do passado, da minha juventude, da beleza que via no espelho, dos homens que amei. Deus foi cruel comigo porque me deu memória. Ele sabia que eu ia sempre recordar a primavera de minha vida, e chorar”. O sábio ficou contemplando o campo de neve, com o olhar fixo em determinado ponto. A certa altura, a mulher parou de chorar: “O que estás vendo aí?” Perguntou. “Um campo de rosas”, disse o sábio. “Deus foi generoso comigo porque me deu memória. Ele sabia que, no inverno, eu poderia sempre recordar a primavera, e sorrir”. Paulo Coelho  

O que fez sentido

Reformulamos o amor porém se fórmula não existia como repeti-la?   É preciso criar um eco ambíguo que deixe de ser eco e tome a forma   do que viver possa ter sido: encontraremos restos do sentido   que num instante incerto alguma coisa fez e nunca poderá ser repetido.   Gastão Cruz