Pular para o conteúdo principal

Pagando três vezes pela mesma coisa


 

Conta uma lenda da região do Punjab, que um ladrão entrou numa fazenda e roubou duzentas cebolas. Antes de conseguir fugir, foi preso pelo dono do lugar, que o levou diante do juiz.

 

O magistrado pronunciou a sentença: pagar dez moedas de ouro. Mas o homem alegou que era uma multa muito alta, e o juiz, então, resolveu oferecer-lhe mais duas alternativas; receber vinte chibatadas, ou comer as duzentas cebolas.

 

O ladrão resolveu comer as duzentas cebolas. Quando chegou na vigésima-quinta, seus olhos estavam inchados de tanto chorar, e o estômago queimava como o fogo do inferno. Como ainda faltavam 175, e viu que não aguentaria o castigo, e pediu para receber as vinte chibatadas.

 

O juiz concordou. Quando o chicote bateu em suas costas pela décima vez, ele implorou para que parassem de castiga-lo, porque não suportava a dor. O pedido foi obedecido, mas o ladrão teve que pagar as dez moedas de ouro.

 

- Se você aceitasse a multa, teria evitado comer as cebolas, e não sofreria com o chicote - disse o juiz. - Mas preferiu o caminho mais difícil, sem entender que, quando se faz algo errado, é melhor pagar logo e esquecer o assunto.

 

Paulo Coelho

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Marmita vazia

  Era manhã cedo quando Bob saiu de casa com sua mochila gasta e a marmita vazia. O estômago roncava, mas ele já estava acostumado: muitas vezes, o almoço era apenas silêncio. Na escola, tentava disfarçar a fome com sorrisos tímidos, mas os colegas percebiam o olhar perdido e a falta de energia.   Na hora do recreio, Bob caminhou até o bebedouro. A água era o único consolo que tinha. Enquanto bebia, seus amigos se entreolharam em silêncio. Sem combinar palavras, cada um tomou uma decisão simples, mas poderosa: dividir. Um tirou da mochila um pedaço de bolo, outro colocou um sanduíche, outro ainda acrescentou frutas. Um a um, foram enchendo a marmita que antes estava vazia.   Quando Bob voltou, encontrou sua marmita transformada em um banquete improvisado. Os olhos se encheram de lágrimas, não apenas pela comida, mas pelo gesto.   Crianças são observadoras. Elas já haviam percebido o problema de Bob.   Naquele dia, Bob entendeu que a fome machuca, mas a g...

Casinha branca

Eu tenho andado tão sozinho ultimamente Que não vejo em minha frente Nada que me dê prazer Sinto cada vez mais longe a felicidade Vendo em minha mocidade Tanto sonho a perecer. Eu queria ter na vida simplesmente Um lugar de mato verde Pra plantar e pra colher Ter uma casinha branca de varanda Um quintal e uma janela Para ver o sol nascer. Às vezes saio a caminhar pela cidade À procura de amizades Vou seguindo a multidão Mas eu me retraio olhando em cada rosto Cada um tem seu mistério Seu sofrer, sua ilusão. Eu queria ter na vida simplesmente Um lugar de mato verde Pra plantar e pra colher Ter uma casinha branca de varanda Um quintal e uma janela Para ver o sol nascer. Gilson

Brado negro

Braços negros erguidos clamam dignidade porque mais uma vida negra foi silenciada para sempre. O sangue derramado no chão diz: “Não seja o próximo!” Tiros, policiais, traficantes... Como se esquivar do abismo, do intolerante? O caos canta pela voz de coquetéis molotov, mas é o amor  que derruba a árvore da violência. Em hip-hops, pichações e protestos on-line a mesma máxima: “O negro sabe amar e sabe lutar!” Definitivamente, a noite grita por respeito e paz e depois o sol de cada dia forja a dignidade com corações puros: construir a igualdade destruída, unir negros e brancos, enfim, amar o ser humano. Uma criança negra me disse que o amor forja a vida pela luz de todas as cores. Anakin Ribeiro