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Almas e monstros


 

 

Naquela noite, o bar da esquina parecia um refúgio para os que carregavam o peso do mundo nos ombros. O som do saxofone misturava-se ao murmúrio das conversas, e o cheiro de café forte se espalhava pelo ar. Clara, sentada sozinha, observava os rostos ao redor — cada um com uma história que jamais seria contada por inteiro.

 

Um homem de terno amarrotado ria alto, tentando esconder a tristeza nos olhos. Uma mulher de vestido vermelho escrevia algo num guardanapo, talvez uma despedida. O garçom, cansado, servia copos com a delicadeza de quem entende que até o gesto mais simples pode ser um ato de compaixão.

 

Enquanto isso, do outro lado da rua, a igreja iluminada recebia fiéis, muitos dos quais ela conhecia bem: egoístas, arrogantes, avarentos, adúlteros, misóginos, hipócritas de todos os tipos, que ajoelhavam-se, buscando redenção.

 

Clara olhou para o contraste — o bar e a igreja, o riso e o arrependimento — e percebeu que o mundo não se dividia entre bons e maus, santos e pecadores.

 

Sorriu, levantou o copo e pensou:

“Existem almas incríveis em bares escuros e monstros ajoelhados na primeira fila das igrejas.

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