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Nascimento do olhar

    O pôr do sol avermelha o horizonte. O sol se põe no vermelho do horizonte. O vermelho se horizontaliza no sol. O pôr do sol orienta o vermelho. O horizonte deposita vermelhos no sol. Um sol se põe na vermelhitude ortogonal do horizonte. Um horizonte avermelha ao sol. Em decúbito dorsal o sol do sol avermelha. Horizontalizam vermelhos de sol. Solarizam rubros horizontes vergéis. Vertem vermelhos espelhos de sol. Horrorizontes vesgos vergam-se ao sol. Horrorizontes velhos vertem vespas de sol. Horrorizontes vermelhizam sendas de sol. Vertem rubros vergéis em horizontes de fel ao sol. Um pôr de sol depõe contra o horizonte. Vermelhorror: o sol se consome.   Susanna Busato    

Ser

Estranho O ser Que me estranha As entranhas O querer ser amado Enlaçado Envolto abraço Assanha Aranha carne, pele Seus lábios A manjedoura Que me espera Expele O gérmen do amor Que te guardo Intocado Nesse tempo etéreo Lou Albergaria

O que faz sentido

  Reformulamos o amor porém se fórmula não existia como repeti-la? É preciso criar um eco ambíguo que deixe de ser eco e tome a forma do que viver possa ter sido: encontraremos restos do sentido que num instante incerto alguma coisa fez e nunca poderá ser repetido Gastão Cruz

Brado negro

Braços negros erguidos clamam dignidade porque mais uma vida negra foi silenciada para sempre. O sangue derramado no chão diz: “Não seja o próximo!” Tiros, policiais, traficantes... Como se esquivar do abismo, do intolerante? O caos canta pela voz de coquetéis molotov, mas é o amor  que derruba a árvore da violência. Em hip-hops, pichações e protestos on-line a mesma máxima: “O negro sabe amar e sabe lutar!” Definitivamente, a noite grita por respeito e paz e depois o sol de cada dia forja a dignidade com corações puros: construir a igualdade destruída, unir negros e brancos, enfim, amar o ser humano. Uma criança negra me disse que o amor forja a vida pela luz de todas as cores. Anakin Ribeiro

Pandemia

No ano de 2222 um vírus matou 2 bilhões de pessoas no mundo. A pandemia obrigou as pessoas a ficarem dentro de suas casas. Enclausurados, amedrontados e impotentes, os homens evitavam a todo custo ser contaminados pelo vírus. Lojas, escolas, praças, parques, praias ficaram vazias. A economia foi arrasada, enquanto o manto tétrico da morte levava sua sombra à cidadela da civilização. O flagelo da doença era impiedoso. As ruas ficaram desertas, exceto por moradores de ruas, porque a pobreza nunca acabara. Ninguém nunca ligou para isso. E muitos deles, expostos ao vírus, pereceram nas ruas. Os sobreviventes não abandonaram a esperança, embora temessem a fúria implacável da pandemia. Os dias e as noites eram as testemunhas das lágrimas e dos lamentos dos homens. A ciência e a medicina não conseguiam decifrar o enigma do adversário. E os governos não tinham vacina nem cura para esse mal e só eram eficazes em enterrar os mortos. Um fato curioso é que a arte não existia em 2222. Govern...

Platônico

  Se você pensa que amar é ter uma cachoeira como testemunha, despir e possuir um corpo, então jamais diga: eu te amo.   A coisa mais erótica que há é renunciar um desejo irrenunciável.   A verdadeira conquista está na alma. É preciso possuir uma alma para amar de verdade e quando você jogar uma rosa imortal no abismo, o vento logo vai te devolvê-la porque o amor mais lindo dispensa dádivas, rejeita investidas, não se seduz por canções.     Se você busca o verdadeiro amor, negue-se, ame-se, multiplique a si mesmo um trilhão de vezes, e todas as suas versões olharão umas as outras indiferentes ao eco suplicante do sublime.   Faça a beleza gozar sem tocar nela. Faça a beldade gozar apenas com um poema.     Amar o que não se tem é a epifania da asseidade e só quem descobre esse tipo de amor consegue domar o selvagem corcel da magia. Anakin Ribeiro  

O vírus somos nós (ou uma parte de nós)

  No princípio era o vírus. Coronavírus. Em menos de dois meses após a primeira morte, registrada na China em 9 de janeiro, ele atravessou o mundo a bordo de nossos corpos que voam em aviões. Tornou-se onipresente no planeta, ainda que tão invisível quanto certos deuses para olhos humanos. Hoje, 1,7 bilhão de pessoas, cerca de um quinto da população global, está em isolamento. Escolas, restaurantes, cinemas e até shoppings cerraram as portas, fronteiras de países e de continentes fecharam, aviões se esvaziaram, presidentes maníacos finalmente foram reconhecidos como presidentes maníacos, neoliberais foram vistos clamando —“cadê o Estado? cadê o Estado?” —, ardorosos defensores dos planos privados de saúde compartilharam campanhas pelo fortalecimento do SUS, terraplanistas exigiram respostas da ciência. Pelas janelas do Facebook, Twitter, Whatsapp e Instagram, pessoas decretam: o mundo nunca mais será o mesmo. Não será. Mas talvez seguirá sendo bastante do mesmo. Além de ...