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Erro peculiar


Rogério revisava livros havia vinte e dois anos e tinha uma regra que nunca contou a ninguém: a primeira leitura era para o texto, a segunda era para os erros, e a terceira, feita em voz baixa, era para o que ele chamava de “o que não está escrito”.

Naquela sexta-feira, a editora lhe mandou um romance de estreia. A autora, Helena Vasques, tinha sessenta e um anos e nenhum livro publicado. O arquivo chegou com um bilhete curto: “Prazo apertado. Ela insiste que seja lançado até o dia 15.”

Ele começou a ler com o lápis na mão.

O livro contava a história de um homem que atravessa uma cidade inteira a pé para entregar uma carta. Era um texto simples, quase manso. E cheio de erros: vírgulas fora do lugar, concordâncias tropeçando, uma personagem que mudava de nome na página 40 e voltava ao original na 52. Rogério foi riscando, corrigindo, anotando nas margens com a letra miúda de sempre.

Na página 87, parou.

Havia uma frase que dizia: “Ele não sabia que o caminho de volta era mais longo que o de ida, porque na volta já carregava o que tinha visto.” Era bonita. Mas o verbo estava no tempo errado, e a construção, torta. A mão dele já descia para corrigir quando algo o deteve.

Continuou lendo. Na página 103, outra frase fora da norma. Na 121, uma repetição que qualquer manual condenaria. Mas, diferentemente dos primeiros tropeços, estes não pareciam descuido. Pareciam respiração. O texto torto tinha um ritmo próprio, como o de alguém que fala caminhando.

Ele ligou para a editora na segunda-feira.

— Preciso falar com a autora.

— Algum problema grave?

— Não sei ainda.

Encontraram-se numa padaria perto da casa dela, num bairro afastado. Helena chegou com uma pasta de plástico apertada contra o peito e o olhar de quem espera uma sentença.

— Pode falar — disse ela. — Está muito ruim, não está?

— Dona Helena, a senhora estudou até que série?

Ela hesitou.

— Quarta. Parei para cuidar dos meus irmãos. Escrevi isso tudo à noite, durante onze anos, no caderno de receitas, porque era o que eu tinha. Depois digitei na lan house da esquina. — Ela desviou o olhar. — Eu sei que tem erro. Sei que não sou escritora.

Rogério abriu o arquivo impresso sobre a mesa. Estava coalhado de riscos vermelhos.

— A senhora tem razão. Tem erro. Muitos. — Ela encolheu os ombros. — E eu corrigi quase todos. Os de vírgula, de concordância, o nome da personagem que muda. Esses eram erros de verdade.

— “Quase todos”?

Ele virou até a página 87 e apontou a frase do caminho de volta.

— Esta eu deixei. E mais umas trinta, pelo livro inteiro. Pela gramática, estão erradas. Pelo livro, estão certas. Passei a vida inteira ensinando que erro é desvio da regra. — Ele coçou a nuca, meio sem jeito. — Mas aqui o erro é a voz. Se eu consertar, a senhora deixa de estar no livro.

Helena ficou muito quieta. Os dedos dela apertavam a borda da pasta.

— E o que o senhor propõe?

— Que a gente converse sobre cada uma delas. A senhora decide quais ficam. É o seu livro.

Passaram a tarde inteira ali, entre cafés frios, ela lendo em voz alta as frases, ele ouvindo. Algumas ela mesma percebeu que eram descuido e riu, envergonhada. Outras defendeu com uma firmeza que o surpreendeu.

— Esta aqui — dizia, o dedo sobre o papel — é do jeito que minha mãe falava.

Quando a padaria começou a fechar, o arquivo estava mais limpo, mas não limpo demais. Rogério guardou o lápis no bolso do casaco.

— Sabe, dona Helena, em vinte e dois anos nunca me ensinaram a diferença entre o que está errado e o que está torto de verdade.

— E tem diferença?

Ele pensou um pouco.

— Tem. O errado a gente conserta. O torto, às vezes, é o que segura a casa em pé.

O livro saiu no dia 15, como ela queria. Na orelha, em vez de uma biografia, Helena pediu que colocassem uma única linha. Rogério ainda guarda o exemplar na estante, e às vezes, na terceira leitura, em voz baixa, ele a repete: “Escrevi como pude, e foi assim que cheguei até aqui.”

 

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