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Louva-a-deus

           Um violão nas costas um grafiti na parede que grita um nascer do sol ignorado um beijo esquecido. Toda a história da humanidade está numa música. Ferimos quem amamos e devoramos quem nos dá prazer. Louvamos a busca vã pela eternidade e por onde passamos a liberdade prende a si mesma no infinito aberto. A violência dança e eu escolho fugir para o refúgio do poeta fatal território onde prevalece o fino fio do equilibrista que nos convida a breves tentativas de viver o carpe diem. Todos buscamos o equilíbrio e o proibido nos atrai para nos dilacerar ou nos salvar. Na vida, só há uma certeza: A verdade mente quando o amor é superestimado forjado de uma vaidade que diz que sou único merecedor admirável o melhor. Eu sou um louva-a-deus e fui programado para falhar mas também olhar para o alto. A poesia do louva-a-deus traduz a jornada humana. Anakin Ribeiro

Filocalia

A poesia mergulha nos meus olhos, no meu paladar, na audição, olfato, tato. Amamos músicas coloridas e odiamos a voz silenciosa da solidão. E por onde quer que o sonho viaje no coração do cometa, a fome por beleza decifra a linguagem que faz o tolo e o sábio se entenderem. O amor é um labirinto invencível feito de milhões de espelhos cujas entrada e saída se confundem e  onde - extasiado, absorto, cálido e faminto - à espera um corpo belíssimo mostra o enigma da vida. Meus séculos e meus milênios, eu os vivo no inefável carpe diem de um breve regozijo ou de uma dolorosa lição. Todos pintamos telas magníficas que, estáticas, movimentam uma odisseia, mas elas só cantam as guerras que perdemos para a morte. E à medida que admito que sempre desdenhamos a estrela alcançada, eu vivo uma vaidade que tem a beleza de um abismo, apenas para responder  ao tempo que tudo se resume ao desejo de ter o que não tenho. A beleza clama. O ...

Antes de virar gigante

No tempo d'eu menina os corredores eram longos as mesas altas as camas enormes. A colher não cabia na minha boca e a tigela de sopa era sempre mais funda do que a fome. No tempo d'eu menina só gigantes moravam lá em casa. Menos meu irmão e eu que éramos gente grande vinda de Lilliput. Marina Colasanti

Consoada

Quando a indesejada das gentes chegar (Não sei se dura ou coroável) Talvez eu tenha medo. Talvez sorria, ou diga: – Alô, iniludível! O meu dia foi bom, pode a noite descer. (A noite com seus sortilégios.) Encontrará lavrado o campo, a casa limpa, A mesa posta, Com cada coisa em seu lugar. Manuel Bandeira

Inútil sou

Por seguir das coisas o compasso, às vezes, quis neste século ativo, pensar, lutar, viver com o que vivo, ser no mundo algum parafuso a mais. Mas, atada ao sonho sedutor, do meu instinto voltei ao escuro poço, pois, como algum inseto preguiçoso e voraz, eu nasci para o amor. Inútil sou, pesada, torpe, lenta, meu corpo, ao sol estendido, se alimenta e só vivo bem no verão, quando a selva cheira e a enroscada serpente dorme em terra calcinada; a fruta se abaixa até minha mão. Alfonsina Storni

Insigne “ficante”

Desabafa-se em grito surdo Estertorado pelo mundo Porém prefiro o som de um olhar Alforriado para amar Que coesa o absurdo, Descarrega a tua ira Adornado de avareza Porém prefiro a ebriedade Convertida da saudade Que por si já tem riqueza, Das pedras que me lançam Encha o fardo de esperança E ate em tua cancha Pois dos males que me rodeiam Que venha o caos de um atroz... Por quantos se explanam em paz aberta Nas asas que se envergam No voo do albatroz. Adriano Gama

Elogio do mal

1. A uma certa distância todas as formas são boas. Em cada coisa, um desvão; em cada desvão não há nada. À mão direita, a explicação perfeita das coisas. À esquerda, a certeza do inútil de tudo. Ter duas mãos é muito pouco. Por isso, por isso os nomes, os nomes que embebem o mundo, e os verbos se fazem carne, e os adjetivos bárbaros. 2. O mundo se gasta aos poucos. A coisa se basta a si mesma, mas não basta ao que pensa um mundo atulhado de coisas que se apagam sem pudor, que se deixam dissipar como quem não quer nada. Existir é muito pouco. Por isso, por isso os nomes, os nomes se engastam nas coisas e sugam o sangue de tudo e sobrevivem ao bagaço e negam a tudo o direito de só durar o que é duro, e roubam do mundo a paz de não querer dizer nada. 3. Bendita a boca, essa ferida funda e má. Paulo Henriques Britto