Pular para o conteúdo principal

Postagens

Aula de literatura

  Todo escritor que tenha sido entrevistado meia dúzia de vezes já passou pela indefectível pergunta: os professores devem obrigar seus alunos a lerem determinados livros? Já pensei mil vezes nesta questão. Quando estudante, eu era rata de biblioteca, mas confesso que me aborrecia quando o tema de casa era ler um livro que não estava nos meus planos. Tinha de tudo nesta recusa: um pouco de rebeldia, um pouco de preguiça e muito de ignorância. Afinal, se lemos livros de álgebra, biologia e história natural sem achar que o professor está sendo autoritário, porque um Guimarães Rosa ou um Machado de Assis provocam tanta polêmica? Porque o livro de ficção está associado à arte, e arte é escolha. Não recebemos aulas sobre Fellini ou Hitchcock na escola. Não aprendemos nada sobre Beethoven ou Beatles no colégio. A obra de Matisse e Renoir não cai nas provas. Por que só a literatura está no currículo? Talvez porque a literatura continue sendo fundamental para a formação do indivíduo....

uma mulher sob influência

  queria escrever um poema sensorial, um sobrevoo rasante, ébrio, erótico, com palavras que pudessem salvar algo disto aqui, mas o poema ele fracassa. o poema fracassa justo onde eu preciso ser salva, justo onde eu, como gena, mabel, como outras, como todas as mulheres que levantam os braços e rodopiam com ou sem roupa, pelas ruas ou entre paredes, em silêncio ou aos berros,            justo onde enlouqueço numa sazonalidade que não omito                                                                                  ...

Tatuagens secretas

Já vai longe o período contestador em que a rebeldia se manifestava através de tatuagens. Numa era em que alargadores de orelha, próteses e implantes subcutâneos disputam atenção, a pintura corporal dificilmente assombra. Penso, por exemplo, no caso de um artista que se cobriu com desenhos de serpente, caveiras, dragões e outros símbolos de violência – apenas para perceber que continuava tão inexpressivo quanto na época em que era um adolescente pesando 58 quilos. Desesperado, ele fez mais um esforço para se sobressair: deu um tiro no próprio pé, raspou a cabeça e tentou o suicídio com anabolizantes. A performance lhe rendeu uma citação na CACA – Coletânea de Arte Contemporânea Ativa – mas não foi além disso. Entretanto, se nos tempos atuais a tatuagem perdeu em gesto político e pasmo estético, ao menos continua válida aos que querem marcas definitivas de suas paixões. Dentro dessa linha, estão na moda as inscrições reclusas, que ficam sob a roupa, debaixo dos cabelos ou em algum l...

A sexta pessoa

Um empresário bem sucedido chama um estagiário para uma conversa breve. Ele aponta para diferentes grupos de pessoas que trabalham na sua empresa. E diz: “Se você anda com cinco pessoas dedicadas, você se torna a sexta. Se você anda com cinco pessoas estudiosas, você se torna a sexta. Se você anda com cinco pessoas milionárias, você se torna a sexta. Se você anda com cinco pessoas medíocres, você se torna a sexta. E por fim, se você anda com cinco pessoas más, você se torna a sexta.”  

Nascimento do olhar

    O pôr do sol avermelha o horizonte. O sol se põe no vermelho do horizonte. O vermelho se horizontaliza no sol. O pôr do sol orienta o vermelho. O horizonte deposita vermelhos no sol. Um sol se põe na vermelhitude ortogonal do horizonte. Um horizonte avermelha ao sol. Em decúbito dorsal o sol do sol avermelha. Horizontalizam vermelhos de sol. Solarizam rubros horizontes vergéis. Vertem vermelhos espelhos de sol. Horrorizontes vesgos vergam-se ao sol. Horrorizontes velhos vertem vespas de sol. Horrorizontes vermelhizam sendas de sol. Vertem rubros vergéis em horizontes de fel ao sol. Um pôr de sol depõe contra o horizonte. Vermelhorror: o sol se consome.   Susanna Busato