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Zênite

Eu deixei o sol confuso quando o provoquei ao ferir o milênio com espinhos de rosas. Nada escapa ao olhar do definitivo porque irrito o destino ao desafiá-lo a se transfigurar em liberdade. E se dou à nostalgia o nome de pessoas importantes, é porque sei desembrulhar a alegria, esta dádiva rara, áurea, guardada ao alcance da alma. Eu prefiro falar de amor com arco-íris. Eu prefiro esculpir meu destino com o talento da paixão. O futuro dança à minha frente – respeitoso ou despudorado - enquanto cavo um abismo infinito de rosas para o sol. O sorriso existe para ser um enigma que dá alegria a quem o desvenda. Mas é a solidão que me oferece à força uma rosa vaidosa e eu escolho seu perfume ou seus espinhos. O sol e o impossível sangram poesia. Só a paixão guarda uma amostra da eternidade. Anakin Ribeiro

A mãe no asilo

Após o falecimento do pai, um bem sucedido empresário colocou a mãe num asilo, e a visitava apenas de vez em quando. Um dia, recebeu uma ligação do asilo, informando que ela estava morrendo. Foi correndo para ver a sua mãe antes que ela falecesse. Ao se aproximar dela, perguntou: – O que quer que eu faça por você, mãe? – Quero – disse a mãe – que você coloque ventiladores no asilo porque o calor castiga as pessoas que residem aqui, e quero também que você compre geladeiras, para que a comida não estrague, pois muitas vezes dormi sem comer nada. O filho disse, surpreso: – Mas só agora está me pedindo essas coisas, enquanto está morrendo?! Por que não reclamou antes?! A mãe, triste, respondeu: – Eu me acostumei com a fome e o calor, mas o meu medo é você não se acostumar quando seus filhos colocarem você aqui, quando estiver velho.

Alice

Nosso filho Gabriel, de catorze anos, era gago. Eu e minha mulher Celina já o havíamos levado a vários especialistas, mas a gagueira dele continuava. Gabriel era estudioso e passava de ano em todas as matérias, menos em português, em que sempre ficava de recuperação. Conseguíamos um professor para lhe dar aulas particulares e assim mesmo ele passava com dificuldade. Nas ocasiões em que o professor mudava, o que podia ocorrer quando Gabriel passava de ano, eu e Celina procurávamos o novo professor para falar das dificuldades do nosso filho. Nesse ano, quando marcamos a entrevista, verificamos que quem ia ensinar português ao Gabriel era uma professora, de nome Alice, que fora transferida de outra escola, uma mulher de aproximadamente quarenta anos, separada do marido, sem filhos. A professora perguntou se Gabriel gostava de ler e minha mulher respondeu que ele detestava e se irritava quando o professor mandava ler um livro da bibliografia. A professora Alice disse que iss...

Ética e vergonha na cara

 Em uma corrida de Cross-country, o queniano Abel Muttai estava a poucos metros da linha de  chegada, quando se confundiu com a sinalização, pensando que já havia completado a prova. Logo  atrás, vinha o espanhol Iván Anaya que, vendo a situação, começou a gritar para que o queniano  ficasse atento, mas Muttai não entendia o que o colega dizia. O espanhol, então, o empurrou em  direção à vitória.  Um jornalista perguntou a Iván:   - Por que o senhor fez isso?" Iván respondeu com outra pergunta:   - Isso o quê? Ele não havia entendido a pergunta…   O meu sonho é que um dia possamos ter um tipo de vida comunitária, em que a pergunta feita pelo  jornalista não seja mesmo entendida, pois não pensou que houvesse outra coisa a ser feita do que  aquilo feito por ele.  Veja o restante da entrevista:   - Por que o senhor deixou o queniano ganhar?   - Eu não o deixei ganhar, ele ia ganhar.   - Mas o s...

A palavra mágica

Ser felizes é o que todos nós queremos. Doam quanto doerem os passos que damos, e ainda que pareça interminável o caminho, aceitamos tudo se tivermos a convicção, ou pelo menos a esperança, de que um dia – um belo dia, como se diz nos contos de fadas – se abrirá diante de nossos olhos, esplêndida, a felicidade. A felicidade tem mil e um jeitos de ser. Há para cada um de nós uma felicidade. Para os pessimistas e os exigentes, a felicidade é uma coisa tão grandiosa e maravilhosa que nunca está ao nosso alcance, ou só se atingirá com muita dor e muito sacrifício. Para outros, a felicidade é um acontecimento diário, e existem dias especialmente venturosos, em que pode haver até mais de uma. Altair é dos que acham que a felicidade é um bem tão valioso e importante que não pode jamais ser simples. Felicidades corriqueiras, para ele, são teoricamente impossíveis. O nome exato delas seria alegrias – um dos mais baixos estágios da felicidade. Sua namorada, Debrinha, já é do tipo qu...

Violência

A maldade massacra a paz. O ciúme agride o amor. O egoísmo enforca a bondade. A indiferença assassina a paixão. A mentira estupra a verdade. O preconceito mata o conhecimento. A vingança namora a maldade. A tristeza humilha a alegria. A dor estrangula o prazer. A morte inveja a vida. Anakin Ribeiro

Bruxas não existem

Quando eu era garoto, acreditava em bruxas, mulheres malvadas que passavam o tempo todo maquinando coisas perversas. Os meus amigos também acreditavam nisso. A prova para nós era uma mulher muito velha, uma solteirona que morava numa casinha caindo aos pedaços no fim de nossa rua. Seu nome era Ana Custódio, mas nós só a chamávamos de “bruxa”.   Era muito feia, ela; gorda, enorme, os cabelos pareciam palha, o nariz era comprido, ela tinha uma enorme verruga no queixo. E estava sempre falando sozinha. Nunca tínhamos entrado na casa, mas tínhamos a certeza de que, se fizéssemos isso, nós a encontraríamos preparando venenos num grande caldeirão.   Nossa diversão predileta era incomodá-la. Volta e meia invadíamos o pequeno pátio para dali roubar frutas e quando, por acaso, a velha saía à rua para fazer compras no pequeno armazém ali perto, corríamos atrás dela gritando “bruxa, bruxa!”.   Um dia encontramos, no meio da rua, um bode morto. A quem pertencera esse anima...