Pular para o conteúdo principal

Postagens

Lucidez

Aos 4 anos, quando o pai lhe perguntou o que tinha feito na escolinha, ele disse que havia ido ao país das fadas e cavalgara um dragão que era bom. O pai achou sensacional e contou para os amigos da firma e também os do futebol. A mãe registrou no livro do bebê com uma caneta de tinta dourada e chegou a enviar a frase para a revista Crescer. Aos 7 anos, quando o pai lhe perguntou como tinha sido seu dia na escola, ele contou que penetrara na floresta amazônica e, depois de lutar com um tigre e vencer, descobrira uma caverna cheia de ouro e pedras preciosas. Só não conseguira trazer as riquezas para casa porque ao tirar um diamante de uma das paredes tudo ruíra. Escapara por um triz e apenas porque um unicórnio voara com ele para longe. O pai explicou que não havia tigres na floresta amazônica nem unicórnios em parte alguma, mas achou divertido. É um menino muito imaginativo diria à mãe quando se recolheram para dormir, antes de apagar a luz e virarem para o lado. Quando ele tinha 10 an...

Pagando três vezes pela mesma coisa

  Conta uma lenda da região do Punjab, que um ladrão entrou numa fazenda e roubou duzentas cebolas. Antes de conseguir fugir, foi preso pelo dono do lugar, que o levou diante do juiz.   O magistrado pronunciou a sentença: pagar dez moedas de ouro. Mas o homem alegou que era uma multa muito alta, e o juiz, então, resolveu oferecer-lhe mais duas alternativas; receber vinte chibatadas, ou comer as duzentas cebolas.   O ladrão resolveu comer as duzentas cebolas. Quando chegou na vigésima-quinta, seus olhos estavam inchados de tanto chorar, e o estômago queimava como o fogo do inferno. Como ainda faltavam 175, e viu que não aguentaria o castigo, e pediu para receber as vinte chibatadas.   O juiz concordou. Quando o chicote bateu em suas costas pela décima vez, ele implorou para que parassem de castiga-lo, porque não suportava a dor. O pedido foi obedecido, mas o ladrão teve que pagar as dez moedas de ouro.   - Se você aceitasse a multa, teria evitad...

Resiliência

  Nádia terminou a faculdade de economia, encontrou nesse tempo o amor da sua vida, que depois se mostrou não ser o amor de sua vida. Ela o amava de fato, mas seu relacionamento nada mais era do que um relacionamento abusivo. Onde já se viu um homem proibir a mulher de trabalhar (por ciúme) enquanto é adepto contumaz de festas noturnas? Ah, no nosso país. Ela era constantemente ignorada, negligenciada e desvalorizada. Ouvia gritos, críticas depreciativas, comentários injustos. Mas ela continuava amando seu marido, Túlio. Queria trabalhar, queria ser mãe, mas Túlio não respeitava suas vontades, não abraçava os sonhos da companheira. A ida inesperada a uma psicóloga mudou tudo. A psicóloga a escutou e falou da importância da coragem e da necessidade de viver uma vida com plenitude. E um relacionamento abusivo não permite isso. Explicou que as pessoas, quando querem, têm uma capacidade incrível de enfrentar e superar situações de crise. Isso se chama resiliência. Nádia e...

Despedida

Por mim, e por vós, e por mais aquilo que está onde as outras coisas nunca estão, deixo o mar bravo e o céu tranquilo: quero solidão. Meu caminho é sem marcos nem paisagens. E como o conheces? – me perguntarão. – Por não ter palavras, por não ter imagens. Nenhum inimigo e nenhum irmão. Que procuras? – Tudo. Que desejas? – Nada. Viajo sozinha com o meu coração. Não ando perdida, mas desencontrada. Levo o meu rumo na minha mão. A memória voou da minha fronte. Voou meu amor, minha imaginação… Talvez eu morra antes do horizonte. Memória, amor e o resto onde estarão? Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra. (Beijo-te, corpo meu, todo desilusão! Estandarte triste de uma estranha guerra…) Quero solidão. Cecília Meireles

Diferentes ou o chamado da identificação

    Ele mora na favela, ela vive em mansão ele estuda em escola pública, ela em colégio de barão ele sabe o que é fome, ela conhece caviar ele escapa de bala perdida, ela flutua ao dançar ele manja hip-hop, ela ama heavy metal ele curte literatura, ela estuda economia ele é fera no skate, ela é exímia na guitarra ele sabe que o Brasil é injusto, ela compra o que quiser ele não pega noia, ela é viciada em redes sociais ela se esbarra nele, ele tá ligado nela demais ela provoca, ele responde ela é bonita, ele é esperto ela se apaixona por ele, ele é louco por ela ela faz o que ela quer, ele é o que é ela grita na rua uma ode à educação, ele protesta na via ela rasga tradição, ele grafita poesia. Anakin Ribeiro

O pato da fazenda

  Havia um pequeno menino que visitava seus avós em sua fazenda. Foi lhe dado um estilingue para brincar no mato. Ele praticou na floresta, mas nunca conseguiu acertar o alvo. Ficando um pouco desanimado, ele voltou para o jantar. Como ele estava andando para trás, viu o pato de estimação da vovó... Em um impulso, ele acertou o pato na cabeça e matou-o. Ele ficou chocado e triste! Em pânico, ele escondeu o pato morto na pilha de madeira! Sally, sua irmã, tinha visto tudo, mas ela não disse nada. Após o almoço no dia seguinte, a avó disse: “Sally, vamos lavar a louça”. Mas Sally disse: “Vovó, Johnny me disse que queria ajudar na cozinha”. Em seguida, ela sussurrou-lhe: “Lembra-te do pato?”. Assim, Johnny lavou os pratos.   Mais tarde naquele dia, vovô perguntou se as crianças queriam ir pescar e vovó disse: “Desculpe-me, mas eu preciso de Sally para ajudar a fazer o jantar”. Sally apenas sorriu e disse: “Está tudo certo, porque Johnny me disse que queria ajudar”. ...

Aula de literatura

  Todo escritor que tenha sido entrevistado meia dúzia de vezes já passou pela indefectível pergunta: os professores devem obrigar seus alunos a lerem determinados livros? Já pensei mil vezes nesta questão. Quando estudante, eu era rata de biblioteca, mas confesso que me aborrecia quando o tema de casa era ler um livro que não estava nos meus planos. Tinha de tudo nesta recusa: um pouco de rebeldia, um pouco de preguiça e muito de ignorância. Afinal, se lemos livros de álgebra, biologia e história natural sem achar que o professor está sendo autoritário, porque um Guimarães Rosa ou um Machado de Assis provocam tanta polêmica? Porque o livro de ficção está associado à arte, e arte é escolha. Não recebemos aulas sobre Fellini ou Hitchcock na escola. Não aprendemos nada sobre Beethoven ou Beatles no colégio. A obra de Matisse e Renoir não cai nas provas. Por que só a literatura está no currículo? Talvez porque a literatura continue sendo fundamental para a formação do indivíduo....