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Violetas

  Porque em nosso mundo alguma coisa sempre escondida, pequena e branca, pequena e o que chamas pura, não lamentamos como lamentas, caro mestre sofredor; tu não está mais perdido do que nós, sob o pilriteiro, o pilriteiro que sustenta harmônicas bandejas de pérolas: o que te trouxe entre nós que te ensinaríamos, embora ajoelhes e chores, juntando tuas grandes mãos, em toda a tua grandeza nada sabendo da natureza da alma, que nunca há de morrer: pobre deus triste, ou nunca tiveste uma ou nunca perdeste uma.   Louise Glück

Os novos mandamentos

  é preciso recriar movimentos pélvicos na esperança de dias férteis é preciso relembrar o gelo que abre mão de átomos quietos para se derramar e possuir a forma do recipiente que lhe contém é preciso precisar o tempo sem relógios no propósito de libertar o movimento é preciso traçar os prazeres na armação dos tecidos que te veste é preciso esquecer o balde que ontem foi chutado bem como a barraca e o seu pau desarmado é preciso, sempre que possível acertar a trave e comemorar Matheus dos Anjos

Necessidade

  Precisamos da verdade, não aquela que salva, mas a que nos condena ao desconhecido e à dor e que se reveste de luz ao ser tocado quando um grito de euforia pela paixão das coisas faz a esperança dançar ou quando o ódio insano pelo fracasso nos incita a golpear o destino e gera um amor indomável, antes que o sangue do silêncio brote de uma lágrima e escorra pelas mãos da poesia. Anakin Ribeiro

Paisagem

  Dorme sob o silêncio o parque. Com descanso, Aos haustos, aspirando o finíssimo extrato Que evapora a verdura e que deleita o olfato, Pelas alas sem fim das árvores avanço.   Ao fundo do pomar, entre as folhas, abstrato Em cismas, tristemente, um alvíssimo ganso Escorrega de manso, escorrega de manso Pelo claro cristal do límpido regato.   Nenhuma ave sequer sobre a macia alfombra Pousa. Tudo deserto. Aos poucos escurece A campina, a rechã sob a noturna sombra.   E enquanto o ganso vai, abstrato em cismas, pelas Selvas adentro entrando, a noite desce, desce... E espalham-se no céu camândulas de estrelas...   Francisca Júlia

O que eu gostaria de ser

  Na sala de aula, a professora pediu aos alunos que fizessem uma redação com o título “O que eu gostaria de ser”. O tema era livre: as crianças poderiam ser um personagem, um objeto, uma pessoa ou um animal… Já em casa quando corrigia as redações dos seus alunos, deparou-se com uma que a surpreendeu. O marido entrou na sala nesse momento e, vendo-a chorar, perguntou o que havia acontecido. Ela apenas lhe entregou a redação e pediu que lesse. O marido começou a ler: “Eu queria ser uma televisão. Quero ocupar o espaço dela, viver como ela vive. Ter um lugar especial para mim e conseguir reunir a minha família ao meu redor. Ser levado a sério quando falar, ser o centro das atenções e ser escutado sem interrupções e perguntas. E se eu estiver calado, quero receber a mesma atenção que a televisão recebe quando não funciona. Ter a companhia do meu pai quando ele chega em casa, mesmo cansado. Que a minha mãe me procure quando estiver sozinha e aborrecida, em vez de me ign...

Se todos fossem iguais a você

  Vai tua vida  Teu caminho é de paz e amor  A tua vida  É uma linda canção de amor  Abre teus braços e canta a última esperança  A esperança divina de amar em paz  Se todos fossem iguais a você  Que maravilha viver  Uma canção pelo ar  Uma mulher a cantar  Uma cidade a cantar  A sorrir, a cantar, a pedir  A beleza de amar  Como o sol, como a flor, como a luz  Amar sem mentir, nem sofrer  Existiria a verdade  Verdade que ninguém vê  Se todos fossem no mundo iguais a você. Tom Jobim e Vinícius de Moraes

Um tigre de papel

  Sabendo que a ele caberia determinar seus movimentos e controlar sua fome, o escritor começou lentamente a materializar o tigre. Não se preocupou com descrições de pêlo ou patas. Preferiu introduzir a fera pelo cheiro. E o texto impregnou-se do bafo carnívoro, que parecia exalar por entre as linhas.   Depois, com cuidado, foi aumentando a estranheza da presença do tigre na sala rococó em que havia decidido localizá-lo. De uma palavra a outro, o felino movia-se irresistível, farejando o dourado de uma poltrona, roçando o dorso rajado contra a perna de uma papeleira.   Em vez de escrever um salto, o escritor transmitiu a sensação de movimento com uma frase curta. Em vez de imitar o terrível miado, fez tilintar os cristais acompanhando suas passadas. Assim, escolhendo o autor as palavras com o mesmo sedoso cuidado com que sua personagem pisava nos tapetes persas, criava-se a realidade antes inexistente.   O quarto parágrafo pareceu ao escritor momento ideal ...